Pandemia, situação política do país, descrédito da cultura. O ator, e agora diretor, Caco Ciocler pega essas três questões em voga e propõe um documentário instigante e envolvente que traz em seu fingimento mais verdades que muitas obras que se afirmam reais.
O Melhor Lugar do mundo é agora é um exercício irônico. O ator e diretor conversa com seus entrevistados por vídeo chamada em um diálogo franco onde tudo é permitido, inclusive mentir. Ele nunca aparece em tela, apenas sua voz, deixando que os entrevistados de alguma maneira conduzam e assumam a responsabilidade por essas “mentiras” que também não são explicitadas.
A ideia é brincar com o dito, já que pouco pode ser feito nesse momento em que o artista se tornou um “inútil”. Brincam com os clichês sobre a Lei Rouanet, com o significado da arte, com a própria ação de se produzir um filme.
É curioso que diversas referências podem ser evocadas no formato, a começar, claro, por Jogo de Cena de Eduardo Coutinho. Mais do que isso, entra em questão a própria ação de depor para uma câmera quando uma entrevistada diz que “eu posso mentir aqui que você nunca vai saber”.
A montagem é inteligente ao ir construindo os diálogos entre os entrevistados de uma maneira tão orgânica que vamos sendo envolvidos pelo processo e ficando curiosos com o desenrolar de tudo aquilo que não parece buscar um fim em si. A obra soa como um grande desabafo. Joga com a realidade, expõe feridas, reflete sobre esse mundo sem arte.
A sinopse oficial do filme traz que este é “Um filme que se utiliza da própria premissa da atuação, do jogo entre o real e a ficção, para imaginar um mundo em que o isolamento tornou a arte impossível e o artista, inútil.” Claro que o texto contém ironia. E o mais irônico é que, ao fazer isso, ele prova que o isolamento não tornou a arte impossível e que o artista nunca será inútil.
Durante o isolamento pandêmico nunca se consumiu tanta arte. Esta foi e sempre será a válvula de escape de uma realidade cruel. A expressão artística faz parte da natureza humana, mesmo o ser que se considera menos criativo é capaz de se expressar de alguma maneira. E todos consomem alguma obra como entretenimento.
Tudo isso é tão óbvio e ao mesmo tempo tem sido tão colocado em questão que só restou a esse grupo mesmo “avacalhar” (referência de O Bandido da Luz Vermelha), torcendo para não se “esculhambar”.
Filme visto na 45ª Mostra de Cinema de São Paulo.
O Melhor Lugar do Mundo é agora (Brasil, 2021)
Com: Luciana Paes, Eduardo Estrela, Eliseu Paranhos, Danilo Grangeia, Lorena Silva, Márcio Vito, Gergette Fadel.
Duração: 73 min.