Vencedor do Urso de Ouro em Berlim, o filme do romeno Radu Jude se propõe a ser uma sátira contra tudo e todos. Uma espécie de desabafo sobre a hipocrisia humana, sobre a sociedade pós pandemia e sobre tabus e julgamentos diversos. Mas a maneira como conduz os três atos de sua obra acabam por esvaziar a discussão.
Tudo começa no prólogo. Um vídeo caseiro feito por um casal que resolve filmar seu ato sexual. Conduzido de maneira bem natural, sem cortes, com sexo explícito, dá mesmo a sensação de estarmos vendo um vídeo real vazado. A questão é que a mulher no filme é uma professora de História de uma escola conservadora.
O primeiro ato gira em torno do drama dessa mulher após o vazamento. Conduzido em uma linguagem clássica, contemplativa. Acompanha o cotidiano de Emi. A conversa com a diretora, seu caminhar na rua, a conversa com o marido pelo celular. Chama a atenção apenas alguns indícios de Radu Jude de que o filme não ficará preso a ela. A maneira como a montagem vai nos conduzindo é curiosa. A personagem passa e a câmera se detém um pouco em situações corriqueiras pela rua, esquecendo a protagonista por instantes.
Essa escolha de quebra da unidade narrativa é uma preparação para o segundo ato em que o diretor subverte completamente o que vinha sendo apresentado. Um compilado de situações, mensagens, recortes desse mundo em plena pandemia, vai se constituindo em tela. Uma crítica criativa e irônica que vai nos conduzindo de maneira abrupta, interrompendo nossas vidas tal qual a Covid-19 fez. Acaba sendo uma metáfora também de tudo que estamos presenciando desde o início de 2020.
Já o terceiro ato se concentra na reunião de pais do colégio com a presença de Emi e a diretora para discutir o futuro da professora. Uma espécie de esquete humorística irônica diante de tantos absurdos da “família tradicional”. Mas apesar do texto dinâmico e da ironia inteligente, talvez esteja aí a questão mais incômoda do filme. Porque o caso de Emi acaba sendo uma desculpa e, em vez de discutir o desrespeito à mulher e aos professores, acaba sendo também um desrespeito a ela, cai no vazio, por mais que busque dar a volta por cima, desmerece uma situação grave, como se tudo fosse uma grande piada. Algo que pode ser perigoso se levado ao pé da letra.
A sensação final acaba sendo incômoda. Toda a crítica e a dinâmica da obra poderia ter sido feita sem precisar apelar para esse alvo inicial de uma mulher sendo julgada por um vídeo íntimo que foi vazado. Tirar o peso dessa discussão da maneira como o filme faz acaba sendo um desrespeito perigoso.
Filme visto na 45ª Mostra de Cinema de São Paulo.
Má Sorte no sexo ou pornô acidental (Romênia, 2021)
Direção: Radu Jude
Roteiro: Radu Jude
Com: Katia Pascariu, Claudia Ieremia, Olimpia Malai, Nicodim Ungureanu, Alexandru Potocean, Andi Vasluianu, Oana Maria Zaharia, Gabriel Spahiu, Florin Petrescu
Crítica afiliada à Abraccine (Associação Brasileira de Críticos de Cinema), é doutora em Comunicação e Cultura Contemporâneas (Poscom / UFBA) e especialista em Cinema pela UCSal. Roteirista profissional desde 2005, é co-criadora do projeto A Guardiã, além da equipe do Núcleo Anima Bahia sendo roteirista de séries como "Turma da Harmonia", "Bill, o Touro" e "Tadinha". É ainda professora dos cursos de Comunicação e Artes da Unifacs e professora substituta da Facom/UFBA.
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