Karate Kid: Lendas

O que mais me chama atenção em Karate Kid: Lendas é como ele tenta jogar em dois tabuleiros ao mesmo tempo, mas raramente consegue equilibrar os movimentos.

Dirigido por Jonathan Entwistle, o longa claramente quer ser uma ponte entre gerações. Há um esforço quase didático em unir o passado simbólico da franquia com um novo protagonista e uma nova dinâmica narrativa. A ideia de inverter a lógica tradicional do aprendiz, trazendo nuances diferentes para a relação com o mestre, é uma das poucas tentativas reais de renovação. E, por um momento, isso funciona. Existe ali uma promessa de evolução temática que poderia tirar a franquia do piloto automático. Mas o problema é que o filme não confia nessa ousadia. Ele recua. E recua para o lugar mais confortável possível: a repetição.

Karate Kid: Lendas - filme

A estrutura narrativa é praticamente um eco do original. Novo garoto deslocado, mudando-se com a mãe para um novo local, conflito com um antagonista simplificado, treinamento, torneio final. Não há exatamente um esforço para reinventar essa jornada, apenas para atualizá-la superficialmente. E isso pesa. Porque, num cenário em que a própria série Cobra Kai já conseguiu revisitar esse universo com ironia, densidade e conflito moral, o filme parece preso a uma versão mais simplificada e menos interessante desse mesmo material.

As atuações seguem esse mesmo padrão irregular. O novo protagonista tem carisma suficiente para sustentar a narrativa, especialmente nos momentos mais íntimos, onde o filme ensaia um estudo de identidade e pertencimento. Mas o roteiro não dá espaço para que isso amadureça. Tudo é apressado, funcional demais, como se cada cena existisse apenas para levar à próxima etapa inevitável da fórmula.

Jackie Chan e Ralph Macchio carregam um peso simbólico enorme, mas são subutilizados. A presença deles tem valor afetivo, claro. Existe um certo prazer em vê-los compartilhando o mesmo espaço, como se o filme estivesse costurando diferentes eras da franquia. Mas, dramaticamente, eles pouco acrescentam. São mais ícones do que personagens. E isso acaba transformando o que poderia ser um encontro histórico em algo decorativo.

Karate Kid: Lendas - filme

Talvez o melhor exemplo disso esteja na forma como o filme trata suas próprias emoções. Há uma cena específica no clímax, durante o torneio final, que deveria ser o ápice dramático. Tecnicamente, ela funciona. A coreografia é competente, a montagem é dinâmica, e o ritmo segura a atenção. Mas falta algo essencial: consequência emocional. O espectador não sente o impacto da vitória porque o filme nunca construiu verdadeiramente o peso da derrota, nem o seu “vilão”.

E aí está o grande dilema de Karate Kid: Lendas. Ele é eficiente, mas raramente envolvente. Funciona como entretenimento imediato, mas não deixa marcas. É aquele tipo de filme que você assiste com certa facilidade, mas que começa a desaparecer da memória poucas horas depois.

Ainda assim, não seria justo ignorar seus méritos. Existe um cuidado em respeitar os temas centrais da franquia sobre disciplina, superação e pertencimento. A mistura de karatê e kung fu traz uma leve renovação estética às cenas de luta, e há momentos em que o filme consegue capturar aquele espírito simples e direto que sempre definiu Karate Kid. O problema é que esses momentos são intermitentes, quase acidentais.

No fim das contas, Karate Kid: Lendas é menos um novo capítulo e mais um reflexo. Um filme que olha para trás o tempo todo e, por isso, avança pouco. Ele não compromete o legado da franquia, mas também não o expande de maneira significativa. E talvez isso explique sua recepção morna: agrada o suficiente para não ser rejeitado, mas não surpreende o bastante para ser lembrado. Uma pena.

Karate Kid: Lendas (Karate Kid: Legends, 2025 / Estados Unidos)
Direção: Jonathan Entwistle
Roteiro: Rob Lieber
Com: Jackie Chan, Ralph Macchio, Ben Wang
Duração: 94 min.

Ari Cabral

Bacharel em Publicidade e Propaganda desde 2000 e atuante na área, alia técnica e criatividade em tudo o que faz. Cinéfilo de carteirinha, Ari se apaixonou pelo cinema nas madrugadas da TV, onde filmes clássicos moldaram seu olhar crítico e sua veia artística, inspirando-o a participar de um curso de crítica cinematográfica ministrado por Pablo Villaça. Histórias são a alma de sua trajetória. Jogador de RPG há mais de 30 anos, decidiu unir sua experiência como roteirista e crítico e sua determinação para escrever livros e materializar suas ideias. Seu primeiro livro, Corrida para Kuélap, está disponível para venda para Kindle. E é só o começo.

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