O Dia da Posse

O Dia da Posse - filme

Pelo segundo ano consecutivo em versão totalmente on-line, o 10º Olhar de Cinema – Festival Internacional de Curitiba – vem disponibilizando ao público, a preços populares, uma rica diversidade de filmes nacionais e internacionais. Entre filmes inéditos e exibições especiais, a mostra se divide entre competitiva e olhares novos, clássicos, retrospectivos e outros. 

Há sempre um misto de emoções desde o início da pandemia. Por um lado, é triste não poder estar em uma sala de cinema, em uma cidade que respire o festival e traga trocas únicas entre aqueles que ali vivem e os que chegam apenas para o evento. Por outro, esse formato torna capaz de unir um país em exibições acessíveis que ampliam o alcance de obras que antes poderiam ficar restritas a um pequeno público. 
O Dia da Posse - filme

É uma oportunidade, ainda que não queira aqui defender o streaming como solução definitiva. As salas de cinema continuam sendo um espaço especial e necessário. Importante frisar isto em uma época em que estamos vendo diversas delas fechando, inclusive o Espaço Itaú de Curitiba, local em que acontecia o Olhar de Cinema no formato presencial. 

Importante também fazer essa defesa do cinema presencial, porque o Olhar de Cinema é um festival com apelo em especial para cinéfilos. Sempre em busca de obras que instiguem e tragam um olhar peculiar, novidades, experimentações na linguagem. O filme de abertura, O Dia da Posse de Allan Ribeiro retrata bem esse perfil, com uma reflexão instigante em uma obra com metalinguagem que reflete sobre o cinema, a pandemia e a situação do país. 
De maneira quase simplista, Allan e seu amigo Brendo brincam com a câmera em um apartamento fechado, isolados como a maioria das pessoas do planeta por causa da pandemia. E assim, inicia-se um exercício de caminhos possíveis em um mundo pós-pandêmico. E a ironia maior é que as possibilidades de Brendo sejam ser presidente ou entrar no Big Brother Brasil. 
É a ilusão possível de um país que não parece mesmo apresentar alternativas de futuro. É curioso que Brendo, entre esses dois sonhos, destaque a todo tempo que será um médico advogado, as duas profissões mais concorridas e desejadas pela população. Supervalorizadas como exemplo de sucesso na vida. Como se os milhares de estudantes que se matam para estudar e entrar em uma faculdade desses dois cursos busquem apenas o diploma, o título. Afinal, médico e advogado são duas profissões bastante díspares para uma mesma pessoa sonhar em ser ambos. Mais do que isso, ser ambos apenas para ter o diploma e se tornar presidente do país ou entrar em um reality show televisivo. 
O Dia da Posse - filme

A sensação ao ver as conversas e sonhos de Brendo é que está tudo errado. Nos perdemos em algum momento enquanto humanidade. E mesmo os sonhos de um mundo melhor parecem tolos e distorcidos. Dá um certo desânimo acompanhar esse exercício que não parece ter de fato um propósito. Como se fosse apenas um convite para ligar a câmera e brincar de imaginar o futuro sem um roteiro, uma ideia, uma lógica. “Estamos sem fazer nada, vamos dar asas à imaginação”. 

E, ao constatar isso, não falo que seja algo exatamente ruim. É o cenário possível após dois anos de incertezas, seja pela pandemia ou pela situação do país, da falta de incentivo à cultura, da crise econômica, das diversas derrotas diárias da humanidade que temos presenciados. Então, ter Brendo como futuro presidente, o primeiro médico advogado, jovem e cheio de vontade, mesmo que sem muitas propostas concretas, acaba sendo um alento. 
O dia da Posse acaba sendo um belo convite que o Olhar de Cinema nos faz em sua abertura. Quem sabe assim a gente consegue dar um rumo melhor para esse país. Tomara. 
Filme Visto no 10º Olhar de Cinema de Curitiba.
O dia da Posse (Brasil, 2021)
Direção: Allan Ribeiro
Roteiro: Allan Ribeiro e Brendo Washington
Com: Brendo Washington
Duração: 70 min.

Amanda Aouad

Crítica afiliada à Abraccine (Associação Brasileira de Críticos de Cinema), é doutora em Comunicação e Cultura Contemporâneas (Poscom / UFBA) e especialista em Cinema pela UCSal. Roteirista profissional desde 2005, é co-criadora do projeto A Guardiã, além da equipe do Núcleo Anima Bahia sendo roteirista de séries como "Turma da Harmonia", "Bill, o Touro" e "Tadinha". É ainda professora dos cursos de Comunicação e Artes da Unifacs e professora substituta da Facom/UFBA.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *