Filmes sobre indígenas e povos originários existem muitos. Resgates históricos, processo de colonização, violência, desrespeito, massacre, roubo de terra, nada disso é novidade. A própria dupla de diretores não-indígenas já realizou diversos trabalhos com o povo Maxakali, sempre respeitando e buscando sua história.
O que chama a atenção em NŨHŨ YÃG MŨ YÕG HÃM: Essa terra é nossa! é o diálogo direto. O próprio idioma ouvido na obra é o maxakali e não o português, não que isso seja inédito, mas é relevante e fortalece o discurso pretendido. Não é um filme feito sobre indígenas, é um filme feito com o povo Maxakali, co-dirigido entre indígenas e não indígenas. Deixar que eles contem sua própria história, dar voz ao desconforto de não terem mais a liberdade de caminhar pela terra que antes era deles é essencial.
O dispositivo da obra é bem simples, acompanhar um grupo andando pelos caminhos pelo território dos antigos Tikmũ’ũn e ir ouvindo suas histórias. Nessa andança, alguns momentos chaves de embate como um homem branco que começa a gritar que um deles rouba lâmpadas de seu estabelecimento. Uma ação que parece buscar deslegitimar a reivindicação dos indígenas e o que busca a obra. Uma atitude que parece infantil, mas revela muito do preconceito e desrespeito do colonizador em relação aos povos originários daquela terra.
Afinal, o que é uma lâmpada diante de uma vida? A visão do colonizador que se acha no direito de invadir aquela terra, cercá-la e chamá-la de sua. Ignorar que existiam pessoas ali antes e vê-la agora como estorvo, invasores, ladrões, vagabundos que querem a terra de maneira “fãcil”.
Episódios assim acabam sendo mais significativos do que se o filme nos trouxesse imagens de arquivo e resgatasse casos dos massacres. Colocar a câmera do lado daquele povo, tirando-os das aldeias, espaço aparentemente protegido, e caminhando pelo espaço dos brancos nos fazendo sentir de maneira mais prática o que é aquilo.
É uma obra com os indígenas para falar sobre os brancos, ou sobre como os brancos lidam com aquele povo. Não por acaso, a frase “essa terra é nossa” é tão repetida na obra. Na fala, no texto, na pichação na parede. É uma demarcação de espaço. E por isso chama tanto a atenção e merece ser ouvida e conhecida por todos e todas.
Crítica afiliada à Abraccine (Associação Brasileira de Críticos de Cinema), é doutora em Comunicação e Cultura Contemporâneas (Poscom / UFBA) e especialista em Cinema pela UCSal. Roteirista profissional desde 2005, é co-criadora do projeto A Guardiã, além da equipe do Núcleo Anima Bahia sendo roteirista de séries como "Turma da Harmonia", "Bill, o Touro" e "Tadinha". É ainda professora dos cursos de Comunicação e Artes da Unifacs e professora substituta da Facom/UFBA.
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