Me chama que eu vou

Me chama que eu vou - filme

Não poderia existir título melhor para o documentário sobre Sidney Magal que vimos no Festival de Gramado. Se tem uma coisa que é visível em cena é a disponibilidade do cantor em se entregar ao documentário de Joana Mariani.

Ainda que o formato padrão televisivo faça a obra carecer de algo mais, há nele um bom resgate da carreira do nosso famoso amante latino, sem pudores para incluir uma visão crítica de sua carreira e escolhas.


Me chama que eu vou - filme

O elemento central do roteiro é construir uma distinção clara entre o artista Sidney Magal, do homem Sidney de Magalhães. Apresentar a construção dessa personagem e o fascínio que criou em torno de sua figura dançante e provocativa que sempre flertou com o brega nos traz uma dimensão curiosa sobre a performance do palco.

Traz também uma discussão pertinente sobre o que é brega e o que é popular. O tensionamento dos preconceitos sociais estão bem construídos durante toda a projeção, inclusive o fato de levantarmos suspeitas sobre sua orientação sexual, como se um homem heterossexual não pudesse dançar e se vestir daquela maneira. 

Em contraponto, conhecer um pouco mais sobre Sidney de Magalhães, acaba sendo o ponto alto da obra. Sua história de amor com Magali dá um filme a parte. Inclusive já está sendo produzido no formato de ficção. A relação com os filhos, a rotina tranquila que leva em sua casa na Bahia, contrastando com a agitação da figura do palco, instiga.

Me chama que eu vou - filme

A montagem também chama a atenção na obra. A maneira como o material de arquivo vai sendo acionado, dialogando com as entrevistas e imagens observativas constrói novo significado, ampliando a imersão do espectador. Não por acaso levou o Kikito de melhor montagem do festival.

Me chama que eu vou pode não ser um filme criativo, nem que explore esteticamente a linguagem documental. Não ousa ir além da fórmula padrão, mas tem a sensibilidade de apresentar sua personagem de maneira envolvente. E tem a sorte de um retratado disponível. No final cumpre a sua função.

Filme visto no 48º Festival de Cinema de Gramado

Me Chama que eu vou (Brasil, 2020)

Direção: Joana Mariani

Duração: 70min

Amanda Aouad

Crítica afiliada à Abraccine (Associação Brasileira de Críticos de Cinema), é doutora em Comunicação e Cultura Contemporâneas (Poscom / UFBA) e especialista em Cinema pela UCSal. Roteirista profissional desde 2005, é co-criadora do projeto A Guardiã, além da equipe do Núcleo Anima Bahia sendo roteirista de séries como "Turma da Harmonia", "Bill, o Touro" e "Tadinha". É ainda professora dos cursos de Comunicação e Artes da Unifacs e professora substituta da Facom/UFBA.

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