Inabitável

Inabitável fala da sensação de não pertencimento. Tanto de uma alma que habita um corpo com o qual não se identifica, quanto de pessoas que parecem não se encaixar em um mundo ainda tão transfóbico.

A direção é hábil em demonstrar isso em pequenos gestos e símbolos, como a funcionária que pega o documento e demonstra ter entendido que a pessoa sumida é trans a partir da mudança de expressão. Ou pela tatuagem da filha que a mãe desconhecia. Uma borboleta, como informa a amiga.A simbologia da borboleta, por sinal, é poética e pode transparecer o sentimento daquelas pessoas. Afinal, nascem lagartas, sentem-se presas e finalmente se permitem uma transmutação ganhando mais brilho e beleza, ao estar em um corpo com o qual se identificam.
Chama a atenção também a maneira como o curta, que trazia uma estética bastante realista, começa a flertar com o fantástico a partir do surgimento de um estranho objeto que parece um reator que liga sozinho por vezes. Uma espécie de chave que surge como esperança possível daquele drama. Já que nesse mundo, a tragédia parece inevitável. Diante de um tema tão relevante e denso, Inabitável consegue nos atingir de maneira sensível, criativa e com a força de suas personagens. Um belo curta que levou o prêmio da crítica, melhor atriz para Luciana Souza e melhor roteiro.
