O Quinto Poder
É fascinante revisitar O Quinto Poder (1962) hoje, não apenas como peça de cinema, mas como um artefato quase profético. É só trocar as ondas de rádio e TV pelas redes sociais que o resto do conteúdo permanece perfeitamente atual. Dirigido por Alberto Pieralisi, o filme se insere num momento em que o Brasil ainda buscava consolidar sua identidade cinematográfica, mas ousa dar um passo além ao flertar com a ficção científica política, um território raríssimo no cinema nacional da época. E não confunda com o filme homônimo de 2013.
A premissa, por si só, já carrega um impacto duradouro. Uma potência estrangeira instala dispositivos capazes de influenciar o comportamento da população através de sinais subliminares. Um jornalista, figura clássica do cinema investigativo, passa a desconfiar de uma série de eventos aparentemente desconexos. O que poderia ser apenas um thriller de conspiração ganha contornos inquietantes porque o filme nunca trata sua ideia como fantasia escapista. Há um peso quase documental na forma como essa paranoia é construída.

O primeiro grande mérito do filme está na sua atmosfera. Existe uma tensão constante que não depende de ação explícita, mas da sensação de que algo invisível está acontecendo o tempo todo. Esse tipo de construção lembra certos trabalhos de ficção científica dos anos 1950, mas aqui ganha um tempero local muito particular. O Rio de Janeiro não aparece como cartão-postal, e sim como um organismo vivo, quase cúmplice da conspiração. A fotografia em preto e branco reforça esse aspecto, criando contrastes duros que ajudam a sustentar o clima de suspeita.
Na direção, Pieralisi demonstra um olhar curioso para o espaço urbano. Ele não apenas enquadra a cidade, ele a integra ao suspense. Antenas, prédios e ruas ganham uma presença quase ameaçadora. É um uso de cenário que vai além do decorativo, algo que, no vocabulário crítico, se aproxima do conceito de mise-en-scène, ou seja, tudo aquilo que está em cena contribuindo para o significado da imagem.
As atuações funcionam dentro dessa lógica mais contida. Eva Wilma entrega uma performance segura, equilibrando racionalidade e inquietação, enquanto Oswaldo Loureiro assume o papel do jornalista com a gravidade necessária para sustentar o tom investigativo. Não são atuações expansivas, e isso parece deliberado. O filme prefere sugerir tensão interna do que externalizar conflito.

Talvez o momento mais emblemático da obra seja quando a ideia de manipulação deixa de ser teoria e passa a ser percebida nos comportamentos coletivos. Há uma sensação perturbadora de perda de controle, como se a individualidade estivesse sendo dissolvida pouco a pouco. Esse tipo de cena sintetiza o valor do filme porque conecta conceito, narrativa e linguagem visual de forma orgânica.
Mas nem tudo funciona com a mesma força. O roteiro, em alguns momentos, parece mais interessado em explicar do que em dramatizar. A exposição da tecnologia subliminar, por exemplo, soa excessivamente didática, o que quebra um pouco o ritmo. Além disso, há uma certa rigidez na progressão narrativa, como se o filme estivesse mais preocupado em sustentar sua tese do que em explorar plenamente seus personagens.
Ainda assim, essas limitações não diminuem o impacto geral da obra. O que permanece é a ousadia. Em pleno início dos anos 60, antes mesmo do endurecimento político que marcaria o país, O Quinto Poder já apontava para temas como manipulação midiática, controle social e interferência externa. Visto hoje, é difícil não enxergar ecos contemporâneos nessa proposta.
No conjunto, o filme funciona como um híbrido curioso entre thriller político, ficção científica e alegoria social. Não é uma obra perfeita, mas é uma obra inquieta, e talvez seja isso que mais importa. Ele não busca conforto narrativo. Pelo contrário, deixa o espectador com a sensação de que o perigo não está apenas na tela, mas no mundo ao redor.
O Quinto Poder (1962 / Brasil)
Direção: Alberto Pieralisi
Roteiro: Carlos Pedregal, Léo Victor
Com: Eva Wilma, Oswaldo Loureiro, Augusto Cesar Vanucci, Sebastião Vasconcelos
Duração: 100 min.

