O Senhor dos Anéis: A Guerra dos Rohirrim
O Senhor dos Anéis: A Guerra dos Rohirrim carrega o peso de um legado quase impossível de sustentar. Voltar à Terra Média nunca é um gesto neutro. Existe sempre uma expectativa implícita de reencontrar aquele senso de grandiosidade que marca os livros e o cinema nos anos 2000. E é justamente nesse ponto que o filme revela sua maior fragilidade.
A escolha pela animação em estilo de anime é, ao mesmo tempo, o gesto mais ousado e o mais controverso da direção de Kenji Kamiyama. Há momentos em que essa estética funciona muito bem, especialmente nas cenas de batalha, em que o movimento ganha fluidez e uma certa elegância coreográfica que o live-action dificilmente alcançaria. Mas essa mesma linguagem visual cria um distanciamento curioso. Em vez de aproximar, às vezes parece deslocar o espectador daquele imaginário mais orgânico que associamos à Terra Média.
Narrativamente, o filme parte de um material promissor. A história de Helm Mão-de-Martelo e a origem do Abismo de Helm têm peso mítico suficiente para sustentar um épico por si só. E há, sim, momentos em que isso aparece com força. Um deles, particularmente marcante, é a resistência em Hornburg, quando o cerco transforma o espaço em um símbolo de sobrevivência e desespero. É nesse ponto que o filme se aproxima daquilo que o público espera: tensão, sacrifício e um senso de história maior sendo construída.
Mas esses momentos são intermitentes. O roteiro parece hesitar entre construir uma narrativa política mais densa ou investir em um drama pessoal centrado na protagonista Héra. O problema não está na escolha, mas na falta de aprofundamento. Héra tem potencial como figura dramática, especialmente na relação com o pai, mas muitas de suas decisões parecem mais funcionais do que orgânicas. Falta tempo de tela para que suas motivações ganhem peso emocional real.
Isso se conecta diretamente com um outro problema: o ritmo. O filme oscila entre trechos apressados e outros excessivamente prolongados, o que quebra a progressão dramática. Em vez de escalar naturalmente, a narrativa parece avançar em blocos desconectados.
Por outro lado, é impossível ignorar os acertos técnicos. A trilha sonora cumpre bem o papel de evocar o espírito das composições clássicas da franquia sem cair em mera repetição. E há um cuidado visível na ambientação, na construção dos cenários e na tentativa de manter coerência com o universo de Tolkien. Mesmo quando o filme falha narrativamente, ele raramente soa desrespeitoso com o material original.
Talvez o maior problema seja justamente esse: A Guerra dos Rohirrim nunca encontra uma identidade própria forte o suficiente para se sustentar sem a sombra da trilogia original. Ele funciona melhor como complemento do que como obra independente. Para fãs, há valor em revisitar esse período da história de Rohan. Para o público geral, a experiência pode parecer menos envolvente do que deveria.
No fim das contas, o filme é um estudo interessante sobre como expandir um universo consagrado sem repetir exatamente a mesma fórmula e acerta ao tentar algo diferente, mas tropeça ao não conseguir equilibrar ambição e execução. É uma obra que provoca mais reflexão sobre suas escolhas do que emoção genuína durante a exibição. E talvez isso já diga bastante.
O Senhor dos Anéis: A Guerra dos Rohirrim (The Lord of the Rings: The War of the Rohirrim, 2024 / Estados Unidos, Japão)
Direção: Kenji Kamiyama
Roteiro: Jeffrey Addiss, Will Matthews, Phoebe Gittins, Arty Papageorgiou
Com: Brian Cox, Gaia Wise, Luke Pasqualino, Miranda Otto
Duração: 122 min.



