A Vida de Cada Um
“Paradoxo que chamamos de Rio de Janeiro”, assim Murilo Salles define seu mais novo filme A Vida de Cada Um que abriu o XXI Panorama Internacional Coisa de Cinema. A trama traz um retrato intenso da realidade carioca entre a milícia e o tráfico, a partir da personagem Flávia. Vivida por Bianca Comparato na vida adulta, a personagem é filha do policial Macedo (Caco Ciocler) e tem que aprender a conviver com a banalização da violência.
Violência no seio familiar, no morro, na polícia, na vida. Ver na tela a maneira como cada personagem lida com a naturalização desse estado permanente de tensão provoca incômodo, mas é também uma forma de denúncia e reflexão. Mais do que expor, a obra tensiona o olhar do espectador, convidando-o a reconhecer as engrenagens que sustentam o status quo da sociedade brasileira.
A narrativa já se inicia nos inserindo nesse registro irônico. Mulheres dançam diante de carros à venda, numa ação promocional de concessionária que mistura erotização e precarização do trabalho. A conversa que se segue sobre a dificuldade de vender, o baixo salário e a divisão da conta no restaurante, revela, de maneira criativa e direta, a complexidade social que o filme se propõe a explorar. Há ali uma síntese potente: consumo, desigualdade e sobrevivência cotidiana entrelaçados de forma quase banal.
A estrutura narrativa se organiza em três tempos, a partir da infância, adolescência e vida adulta de Flávia, permitindo que o roteiro construa sua protagonista em camadas. Ao optar por uma revelação gradual de informações, o filme não apenas delineia sua trajetória, mas também evidencia as fissuras de sua formação: suas dores, escolhas e, sobretudo, os paradoxos que atravessam suas ações. Não se trata de justificar, mas de compreender os caminhos possíveis dentro de um contexto.
Se Macedo se aproxima de um viés mais maniqueísta, o mesmo não se pode dizer do restante das personagens. O filme aposta na ambiguidade: ninguém é inteiramente bom ou mau. A construção em camadas complexifica a narrativa e reforça seu compromisso com uma representação mais honesta e, por isso mesmo, mais incômoda da realidade.
Outro ponto alto está na ironia que atravessa a dimensão política local. Sem recorrer a discursos didáticos, o filme insere comentários sutis, e por vezes mordazes, sobre as estruturas de poder que sustentam esse cenário. A política surge menos como pano de fundo e mais como força estruturante, moldando comportamentos, afetos e escolhas individuais.
No fim, A Vida de Cada Um se afirma como um thriller policial intenso, mas que vai além das convenções do gênero. É um filme que nos mantém presos à cadeira não apenas pela tensão narrativa, mas pelo desconforto constante que provoca. Ao nos obrigar a encarar de frente aquilo que muitas vezes preferimos naturalizar, a obra cumpre um papel fundamental: o de transformar o olhar, ainda que isso signifique sair da sessão com mais perguntas do que respostas.
Filme visto no XXI Panorama Internacional Coisa de Cinema.
A Vida de Cada Um (2025 / Brasil)
Direção: Murilo Salles
Roteiro: Murilo Salles e Leo Garcia
Com: Bianca Comparato, Caco Ciocler, Ronald Sotto, Ivan Mendes
Duração: 110 min.



