Era Uma Vez…

É difícil não se comover com Era Uma Vez… (2008) mesmo antes dos primeiros créditos. Logo no começo, a tela se abre para um panorama sincero do Cantagalo, com uma panorâmica que desliza do morro diretamente aos prédios elegantes de Ipanema. Essa justaposição não é só visual, é política: o cinema de Breno Silveira, ainda em sua fase inicial, já mostra a cidade partida, o abismo entre classes visual e emocionalmente coladas.

O “Era uma vez…” do título não é inocente. O filme se apresenta como uma fábula, mas logo deixa claro que aqui a história de amor não segue um roteiro infantil, não é um conto de fadas. Inspirado em Romeu e Julieta, o romance entre Dé (Thiago Martins) e Nina (Vitória Frate) nasce de disparidades tão concretas quanto geográficas e sociais. Ele, morador da favela, sobrevivendo com um quiosque de cachorro-quente. Ela, menina rica, observada com curiosidade e distância pelo morro.

Era Uma Vez... - filme

Thiago Martins tem uma presença simples, mas carregada de veracidade, o tipo de interpretação que transparece sem exageros. Já Nina, no olhar de Vitória Frate, parece trespassada por calma e empatia, criando uma química difícil de falsificar. O roteiro não se dá ao luxo de aprofundar cada nuance do romance. O amor é imediato, intenso, o romance é rápido. E isso funciona. Parte da potência do filme reside na urgência e na impossibilidade dessa relação.

Visualmente, o filme tem acertos incontestáveis. A fotografia capta o Rio com ternura e brutalidade, caminhando entre o drástico e o poético. O contraste entre câmera lenta e cenas cotidianas reforça a aura de fábula trágica. O som é outro personagem: a trilha escapa do samba raiz e abraça um samba mais urbano, funk e poesia, adicionando sabor carioca real ao coração da narrativa.

Era Uma Vez... - filme

Mas não vamos fingir que não há falhas. O roteiro tropeça em alguns clichês. O casal que se ama contra o mundo, o destino anunciado, cenas pouco inovadoras, e até certa naturalização da desigualdade como tragédia inevitável. Essas escolhas narrativas ressaltam a disparidade entre morro e asfalto como algo que nem sempre se pode mudar. Isso, infelizmente, reflete uma comodidade narrativa mais do que um espelho crítico.

Há, contudo, um momento que resume todo o valor do filme. O plano final de Thiago Martins. Fora da pele de Dé, ele reaparece como ele mesmo, falando da trajetória até ali, da favela à tela. Esse instante quebra a ficção com uma sinceridade cortante: “essa história poderia ser a minha”. Um suspiro de autenticidade, que faz a tragédia reverberar além das artimanhas do melodrama.

Em resumo, Era Uma Vez… é uma fábula carioca que repete fórmulas, mas as repete com habilidade. Tem fotografia ágil, ambientação pungente, três atuações sinceras entre jovens. O filme tenta dar conta de um amor impossível, numa cidade que insiste em separar vidas, e falha e acerta com a mesma energia. Não é cinema revolucionário, mas é, em certos instantes, visceralmente verdadeiro e sincero.

Era Uma Vez… (2008 / Brasil)
Direção: Breno Silveira
Roteiro: Patrícia Andrade, Domingos Oliveira
Com: Thiago Martins, Vitória Frate, Cyria Coentro, Paulo César Grande, Rocco Pitanga
Duração: 118 min.

Ari Cabral

Bacharel em Publicidade e Propaganda desde 2000 e atuante na área, alia técnica e criatividade em tudo o que faz. Cinéfilo de carteirinha, Ari se apaixonou pelo cinema nas madrugadas da TV, onde filmes clássicos moldaram seu olhar crítico e sua veia artística, inspirando-o a participar de um curso de crítica cinematográfica ministrado por Pablo Villaça. Histórias são a alma de sua trajetória. Jogador de RPG há mais de 30 anos, decidiu unir sua experiência como roteirista e crítico e sua determinação para escrever livros e materializar suas ideias. Seu primeiro livro, Corrida para Kuélap, está disponível para venda para Kindle. E é só o começo.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *