WR Discos – Uma invenção musical

Doze anos foi o tempo que os diretores Nuno Penna e Maira Cristina levaram para finalizar a produção do documentário. Sem apoio financeiro e muita vontade, eles foram resgatando as memórias de ex-funcionários e artistas sobre a história da gravadora mais importante da Bahia. Este mérito, por si só, já é louvável, já que o empenho e vontade de realizar está impresso nos quase oitenta minutos de projeção.

É um documentário tradicional participativo, que mescla depoimentos, com imagens de arquivo e um reencontro especial de parte da banda fixa no estúdio para a gravação de uma faixa que ajuda a traduzir muito do espírito do que foi a empresa de Weslay Rangel. A música de Lazzo Matumbi, Alegria da Cidade, é um hino ao povo baiano, a arte, as dificuldades e, claro, a alegria da nossa música, que ficou conhecida mundialmente como Axé Music.

WR Discos - Uma invenção musical - filme

A rememoração do surgimento do estúdio é, também, um pouco da história da própria Axé Music. Da maneira como aqueles músicos e técnicos encontraram formas criativas de gravar, mesmo com poucos recursos, faixas com diversos instrumentos, buscando uma estética própria que pudesse traduzir toda a pulsação daquelas músicas. Não é exagero dizer que todos os nomes envolvidos com a Axé Music passaram por aquele estúdio.

É impressionante ver como a iniciativa do empresário, assim como a criatividade dos músicos foram encontrando soluções diversas para aquela sonoridade. Como quando ele comprou um terreno vazio ao lado do estúdio só para gravar os tambores da Timbalada com a sonoridade das ruas. Ou quando utilizaram o reverbe que poderia ser visto como um problema de acústica, como estética própria.

WR Discos - Uma invenção musical - filme

Vale ressaltar que o estúdio foi também importante gerador de emprego para músicos e técnicos locais, consolidando um espaço de troca criativa e valorização de talentos regionais. Ao longo dos anos, o estúdio se tornou uma espécie de escola não oficial para esses profissionais. O documentário captura esse espírito ao destacar a colaboração entre os artistas e a forma como o estúdio funcionava como um catalisador para experimentação.

Além disso, o filme presta uma homenagem ao impacto cultural do estúdio na movimentação do cenário musical da Bahia. Ao resgatar essas histórias e oferecer uma nova perspectiva sobre o legado de Weslay Rangel, o documentário reafirma a importância de preservar a memória de iniciativas que moldaram a música popular brasileira. É um exemplo prático de como a arte, quando apoiada por projetos visionários, pode transcender limitações materiais e alcançar o coração de uma cultura.

Não por acaso, a sessão de estreia no Panorama Internacional Coisa de Cinema terminou com a plateia aplaudindo de pé. Composta por muitos dos funcionários ou parentes que passaram pela WR, a audiência parecia reviver, junto com o filme, cada momento ali exposto. A emoção tomou conta da sala e criou uma ponte entre passado e presente, reafirmando que sim, a WR foi mais do que um estúdio ao proporcionar aquela invenção musical.

WR – Uma Invenção Musical (Brasil, 2025)
Direção: Nuno Penna e Maira Cristina
Roteiro: Maira Cristina
Com: Carlinhos Brown, Daniela Mercury, Joao Jorge, Lazzinho, Lazzo Matumbi, Margareth Menezes, Wesley Rangel, Walter Queiroz, Roberto Mendes, Roberto Santanna, Geronimo, Silvinha Torres e Carlinhos Marques
Duração: 78 min.

Amanda Aouad

Crítica afiliada à Abraccine (Associação Brasileira de Críticos de Cinema), é doutora em Comunicação e Cultura Contemporâneas (Poscom / UFBA) e especialista em Cinema pela UCSal. Roteirista profissional desde 2005, é co-criadora do projeto A Guardiã, além da equipe do Núcleo Anima Bahia sendo roteirista de séries como "Turma da Harmonia", "Bill, o Touro" e "Tadinha". É ainda professora dos cursos de Comunicação e Artes da Unifacs e professora substituta da Facom/UFBA.

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