Flow – À Deriva

Filmes de animação com bichos como protagonistas não são novidade. Em especial pets nas situações mais diversas. A relação dos humanos com animais sempre rendeu belas histórias. Flow, o filme da Letônia que tem um gato como protagonista não seria diferente. Mas o filme, que tem encantado o mundo por onde passa, a ponto de ser a animação favorita no Oscar, desbancando Pixar/ Disney e Dreamworks, tem algo diferente. Aqui, os animais não são antropomorfizados e a história em um mundo pós-apocalíptico não tem se utiliza da linguagem verbal e, ainda assim, nos prende por toda a projeção.

Não há maiores explicações, mas não é difícil supor que estamos presenciando consequências da crise climática, com as águas invadindo a floresta, subindo a ponto de quase submergir tudo, deixando milhares de animais sem lares, tendo que se reinventar para sobreviver. Nenhum sinal de humanos, apenas casas e barcos abandonados que serão utilizados na medida do possível pelos personagens da trama.

Flow - À Deriva - filme

Impressiona a caracterização de Flow nos pequenos detalhes. Quem tem ou já teve um gato consegue perceber cada gesto, a maneira de andar, de se espreguiçar, se lamber, os olhares e atitudes. O chiado de quem quer se defender, o miado de dor ou medo, os pelos arrepiados. O felino pulsa em tela com tanta verdade que é impossível não se conectar a ele, mesmo que não exista nenhum traço de comunicação humana. Entendemos e nos comunicamos com eles, como nos comunicamos com nossos próprios pets.

A maneira como ele, aos poucos, vai construindo laços com uma capivara, um cachorro, uma garça e um lêmure também encanta. Como um grupo de renegados da arca de Noé, eles seguem de barco de maneira completamente instintiva. E, por mais que pareça, em nenhum momento a narrativa perde fôlego. Há conflitos, momentos engraçados, de ternura, de tensão. Tudo construído com muito equilíbrio, nos fazendo aprofundar cada vez mais a empatia e envolvimento com a trupe.

Flow - À Deriva - filme

O traço da animação também encanta, construída em detalhes realísticos, mas ao mesmo tempo construída em traços de pintura próprios que deixam a fotografia condizente com aquela natureza selvagem. As cenas submersas também encantam pelo efeito e contraste com o verde da floresta. Um verdadeiro deleite visual que agrada a adultos e crianças.

Como se não bastasse, a trama traz uma reflexão sobre o próprio planeta e as questões climáticas que o assolam. Afinal, existem vestígios humanos, mas não há sinal de sobreviventes da espécie. O planeta busca sua própria forma de sobrevivência diante do caos a que o levamos. E cabe aos animais fazer o mesmo, ainda que não entendam bem o que está acontecendo.

E mesmo que não exista uma antropomorfização dos animais. Eles não são isentos de emoções como medo, dor, afeto, compaixão. A construção dos laços afetivos e lealdade é bela e singela. observando-os, sabemos que são capazes de compreender certos níveis de relação, sentir a dor da perda, reforçar o apoio mútuo. E tudo está no filme de uma maneira muito bem construída.

Flow é uma obra de arte. Não por acaso tem colecionado tantos prêmios, sendo inclusive indicado ao Oscar de melhor animação e melhor filme internacional. Daqueles filmes que ficam conosco de uma maneira especial.

Flow – À Deriva (Flow, 2025 / Letônia)
Direção: Gints Zilbalodis
Roteiro: Gints Zilbalodis, Matīss Kaža
Duração: 85 min.

Amanda Aouad

Crítica afiliada à Abraccine (Associação Brasileira de Críticos de Cinema), é doutora em Comunicação e Cultura Contemporâneas (Poscom / UFBA) e especialista em Cinema pela UCSal. Roteirista profissional desde 2005, é co-criadora do projeto A Guardiã, além da equipe do Núcleo Anima Bahia sendo roteirista de séries como "Turma da Harmonia", "Bill, o Touro" e "Tadinha". É ainda professora dos cursos de Comunicação e Artes da Unifacs e professora substituta da Facom/UFBA.

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