Maria Clara Machado marcou a história do teatro brasileiro, em especial o teatro infantil, com suas obras e com a fundação do teatro O Tablado, importante escola de dramaturgia e improvisação. Pluft, o fantasminha é considerado pela própria autora como sua obra mais completa e é seu texto com maior número de montagem nos palcos e adaptações para televisão e cinema. Essa nova versão de Rosane Svartman acaba sendo uma homenagem há tempos mais ingênuos.
Sem nostalgia excessiva, há uma aura nas obras infantis do século passado que parecem ter se perdido na linguagem ágil dos tempos atuais. Não que a evolução seja um problema ou que histórias infantis não possam ser profundas. As diversas camadas do roteiro em obras como as da Pixar hoje são um avanço na linguagem, mas nos dão a sensação de que não se pode mais simplesmente brincar.
A trama é simples. O pirata perna-de-pau rapta a garotinha Maribel porque quer o tesouro de seu avô, o pirata Capitão Bonança Arco-íris. Presa no sótão da velha casa beira-mar, ela conhece Pluft, um fantasma que tem medo de gente, enquanto aguarda seus amigos João, Sebastião e Juliano a salvarem. A dinâmica dos dois é o ponto alto da projeção. Há um clima gostoso dessa amizade mágica, dessa visão infantil, dos medos e do aprendizado. Há sequências belas dos dois interagindo no sótão ao som da música tema da dupla que nos envolve, emociona e diverte.
O trio de marinheiros João, Sebastião e Juliano nos lembra muito a dinâmica dos três patetas. Por serem homens adultos com uma mente infantilizada acaba sendo simplesmente um alívio cômico na trama, que pode parecer bobo a olhares já acostumados a outras dinâmicas. Mas não deixa de ser divertido ver a lógica de repetição da música do Capitão Bonança e do João perguntando se eles tem mesmo que salvar Maribel. Já Juliano Cazarré vai para a caricatura do pirata mau, mantendo também a proposta mais rasa da trama de não aprofundar as personagens, trabalhando apenas com os estereótipos e funções dramáticas.
Visualmente, chama a atenção a dinâmica dos fantasmas que foram gravados debaixo d´água construindo uma fluidez nos movimentos que funcionou muito bem. Ainda que seja perceptível que estão submersos, principalmente por causa dos movimentos dos cabelos, a maneira como os corpos se movimentam sem tanta ação da gravidade ajuda na movimentação em cena, na misé-em-scene, e na construção dessa atmosfera lúdica do que seriam os fantasmas entre nós. O único problema é o fato das personagens vivas não contracenarem diretamente com os fantasmas prejudicando, um pouco a atuação, em especial das duas crianças.
Tudo isso, no entanto, parece supérfluo diante da proposta da obra de Maria Clara Machado que busca uma aproximação com o universo infantil mais puro. Com as brincadeiras de faz-de-conta, com a dinâmica do teatro e da contação de histórias da primeira infância. Com o fato de explorar o mundo por uma ótica da descoberta do diferente. Afinal, quem nunca brincou ou sonhou com piratas, tesouros e fantasmas?
O grande trunfo de Pluft acaba sendo o resgate dessas histórias mais inocentes.
Fica só a dúvida de com que público irá dialogar mais. As crianças acostumadas hoje em dia com essas tramas mais dinâmicas e com roteiros com maiores camadas. Ou seus pais, saudosos da infância que tiveram e que foi tão marcada por obras como essas. De qualquer maneira, vida longa ao cinema nacional, a nossa cultura e a possibilidade de simplesmente brincar com realidades diversas.
Pluft, o Fantasminha (Brasil, 2022)
Direção: Rosane Svartman
Roteiro: Cacá Mourthé, José Lavigne (baseado em Maria Clara Machado)
Com: Juliano Cazarré, Fabíula Nascimento, Lola Belli, Nicolas Cruz, Arthur Aguiar, Lucas Salles e Hugo Germano.
Crítica afiliada à Abraccine (Associação Brasileira de Críticos de Cinema), é doutora em Comunicação e Cultura Contemporâneas (Poscom / UFBA) e especialista em Cinema pela UCSal. Roteirista profissional desde 2005, é co-criadora do projeto A Guardiã, além da equipe do Núcleo Anima Bahia sendo roteirista de séries como "Turma da Harmonia", "Bill, o Touro" e "Tadinha". É ainda professora dos cursos de Comunicação e Artes da Unifacs e professora substituta da Facom/UFBA.
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