Mar de Dentro
Toda mulher tem um instinto materno, diz a sociedade patriarcal que constrói estereótipos e regras que nos colocam em caixas. Uma mulher que não quer ser mãe, ou que prioriza o trabalho, é vista como anormal, julgada e condenada. Há uma romantização da maternidade em diversos níveis, Mar de Dentro vem questionar alguns deles, ainda que traga uma curva que, de alguma maneira, reforça o amor materno.
É curioso como algumas questões passam de maneira sutil, como quando ela diz ao namorado que não sabe se quer ter o filho e ele diz que ele quer. O aborto, além de ilegal no país, é um tema sempre delicado. A discussão feminista sobre o direito do corpo da mulher versus as questões religiosas sobre a gestação de uma vida é algo que parece longe de um consenso. Se o pai da criança quer, então, fica ainda mais complicado justificar uma interrupção. Mar de Dentro não entra nessa discussão, ainda que demonstre a dificuldade de Manuela de se encaixar nesse novo papel.
O olhar de Dainara Toffoli, no entanto, ao mesmo tempo que busca desconstruir essa regra e cobrança social, acaba reforçando-a aos poucos, como na cena em que a pediatra olha com julgamento ao perceber que a babá sabe mais da criança que a mãe. A própria lógica que vai se invertendo traz essa mensagem de que no final, a mãe desperta em toda mulher. Um pai ausente é aceito socialmente, está trabalhando para sustentar e dar um futuro ao filho. Uma mãe ausente, é desalmada. Talvez o filme tenha perdido a oportunidade de aprofundar um pouco mais isso.



