Diversidade na competitiva do CinePe 2019

Cine Pe 2019

Segunda noite do Cine Pe foi marcada pelo início das mostras competitivas. Foram dois curtas da competitiva pernambucana, dois da nacional e um longa-metragem. Todos com um importante viés político / social que faz o festival iniciar de maneira diversa e com boa representatividade. Durante os discursos de apresentação, o cineasta carioca Rozzi Brasil foi a voz mais aplaudida e ovacionada pelo discurso empoderador sobre o papel da mulher e necessidade de espaço para as mesmas nas mais diversas áreas.

Começando a noite com a competitiva pernambucana, Mulheres de Fogo, de Vinícius Meireles, traz mulheres do assentamento Chico Mendes III, localizado a 7km de Recife. O documentário traz lideranças femininas do local, falando das dificuldades diversas como cultivar produtos orgânicos, solo castigado e falta de chuva, tudo de uma maneira bastante coloquial e leve, ainda que deixe claro o discurso e a importância daquele espaço. Um documentário com poucos recursos, alguns problemas técnicos de som, mas que nos envolve pela força e história daquelas mulheres.

Já o curta Pisciano de Alexandre Pitanga é um experimento de linguagem que mostra o flerte entre dois rapazes em um ônibus coletivo e mergulha em construção poética do amor platônico ou não. Um curta universitário que traz uma sensibilidade, demonstrando essa busca pelo enquadramento e comunicação através das imagens, tão caro ao cinema.

Na competitiva nacional, outro curta pernambucano, dirigido por Luci Alcântara, trouxe um pouco mais sobre o premiado escritor Raimundo Carrero, já retratado em outras obras da cineasta. Com o título Carrero, o Áspero Amável, o documentário mergulha um pouco mais no fazer literário, trazendo a voz do próprio autor para contar sobre sua rotina, inspirações e método de escrita.

Na coletiva de imprensa, Luci comentou que documentário cinematográfico não é jornalismo e que ela busca um ensaio, mais do que explicar a trajetória do retratado. O recorte focando no processo de criação foi uma escolha baseada nessa consciência e buscando algo que a instigasse para além do retrato do escritor.

Já o segundo curta nacional, Procuram-se mulheres de Rozzi Brasil fala sobre mulheres sambistas invisibilizadas por uma cultura machista do ambiente do samba. Partindo de um anúncio nas redes sociais, o curta traz mulheres instrumentistas, cantoras e compositoras que vivem do samba, mas são quase desconhecidas pela própria comunidade.

“A minha ideia com esse filme é abrir cabeças, tem muitas mulheres que nem sabe o que está acontecendo”, ressaltou a cineasta na coletiva de imprensa. O filme surgiu a partir do projeto Por Telas, idealizado por Cecília Rabello que realizou um curso de quatro meses de audiovisual na quadra da Portela. Além do “Procuram-se mulheres”, outros dois curtas foram produzidos na mesma ocasião.

Para fechar a noite, o longa-metragem Abraço de DF Fiuza, co-produção Bahia e Sergipe, que retrata a luta dos professores da escola pública no ano de 2008 contra a perda do direito da progressão vertical de carreira. Um tema extremamente importante, ainda mais no momento atual do país que deixa a mensagem sobre a importância da educação para a formação e crescimento de um povo.

O filme foi financiado pelo sindicato dos professores de Sergipe e tem uma mescla de atores locais, alguns nomes nacionais, como Flávio Bauraqui e os próprios professores, o que dá uma mistura curiosa ainda que falte ao filme uma naturalidade maior, principalmente no texto.

Foto: Felipe Souto Maior

Amanda Aouad

Crítica afiliada à Abraccine (Associação Brasileira de Críticos de Cinema), é doutora em Comunicação e Cultura Contemporâneas (Poscom / UFBA) e especialista em Cinema pela UCSal. Roteirista profissional desde 2005, é co-criadora do projeto A Guardiã, além da equipe do Núcleo Anima Bahia sendo roteirista de séries como "Turma da Harmonia", "Bill, o Touro" e "Tadinha". É ainda professora dos cursos de Comunicação e Artes da Unifacs e professora substituta da Facom/UFBA.

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