A Gente Se Vê Ontem

A Gente Se Vê Ontem - filme

Primeiro longa-metragem dirigido por Stefon Bristol, A Gente Se Vê Ontem é uma ficção científica que instiga por associar viagem no tempo com questões raciais, porém, o roteiro acaba sendo infantil demais para a seriedade do tema abordado.

Mais uma aposta da Netflix em filmes originais, a produção chamou a atenção por ter Spike Lee como produtor. Porém, o embasamento da trama não consegue atingir o bom nível das obras do diretor, ainda que tenha influências visíveis, inclusive na construção do universo ficcional e personagens.

A Gente Se Vê Ontem - filmeO roteiro traz dois adolescentes prodígios, CJ, interpretada por Eden Duncan-Smith, e Sebastian, vivido por Dante Crichlow. Moradores do Bronx ele tem um experimento escolar que possibilita viagens no tempo, mesmo desacreditados pelo professor de ciências, eles investem nos testes e, ao conseguir sucesso, acabam causando problemas ao mexer na linha temporal.

Há muitas referências a filmes de viagem no tempo, em especial De Volta para o Futuro com participação especial de Michael J. Fox como professor dos meninos com direito a repetir a famosa expressão do Dr. Brown (Christopher Lloyd) na trama, “great scott”. Porém, as similaridades ficam por aí.

Poderia ser só um filme adolescente de viagem no tempo e algumas atrapalhadas. A trama, porém, busca um aprofundamento da questão racial e a violência policial, construindo uma situação chave e um retorno temporal que busca evitar um trágico acontecimento na vida da protagonista. Porém, a tentativa acaba piorando tudo, tipo as tentativas de Evan em Efeito Borboleta.

A Gente Se Vê Ontem - filmeA situação e as tentativas frustradas trazem camadas ao roteiro e abrem uma discussão necessária sobre a forma como a polícia trata os cidadãos negros como bandidos à primeira vista. Há diversas pistas no cotidiano deles antes mesmo do acontecimento em si. Porém, o tema não é trabalhado em profundidade, deixando apenas um discurso superficial e uma correria ingênua da protagonista para tentar evitar o ocorrido.

A direção também constrói muitos momentos de clipes de passagem, contemplando o bairro e criando uma quebra na trama que ajuda nessa sensação ruim de que a história não está tendo o tratamento que merece. Há poucos respiros e reflexões. E as próprias situações não são construídas para nos fazer comprar a ideia, nem mesmo nos envolver completamente com as personagens.

Ainda assim há bons momentos como quando é dito o título do filme, que apesar de didático traz uma das poucas cargas emocionais que o tema merece. A Gente Se Vê Ontem é um filme que traz elementos e argumentos instigantes, mas faltou maturidade para tratamento mais profundo.

A Gente Se Vê Ontem (See You Yesterday, 2019 / EUA)
Direção: Stefon Bristol
Roteiro: Fredrica Bailey e Stefon Bristol
Com: Eden Duncan-Smith, Dante Crichlow, Stro
Duração: 86 min.

Amanda Aouad

Crítica afiliada à Abraccine (Associação Brasileira de Críticos de Cinema), é doutora em Comunicação e Cultura Contemporâneas (Poscom / UFBA) e especialista em Cinema pela UCSal. Roteirista profissional desde 2005, é co-criadora do projeto A Guardiã, além da equipe do Núcleo Anima Bahia sendo roteirista de séries como "Turma da Harmonia", "Bill, o Touro" e "Tadinha". É ainda professora dos cursos de Comunicação e Artes da Unifacs e professora substituta da Facom/UFBA.

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