Okja

Okja - filme

Uma das polêmicas do Festival de Cannes por ser produzido pela Netflix, Okja é uma instigante mistura que nos traz a história de amor de uma menina por seu animal, para falar em sociedade de consumo, abusos na indústria de carne, marketing predatório e outros problemas da sociedade atual.

Mija é uma garota de 14 anos que vive em uma montanha com seu avô e sua porca de estimação. Na verdade, o animal é uma mutação genética chamada de “super porco” criada pela multinacional Mirando que enviou 26 exemplares dele pelo mundo para um concurso que duraria 10 anos. Com o fim do prazo, é hora da porca Okja retornar para a empresa, mas Mija não se conformará de ficar sem sua amiga de infância.

Okja - filmeComo todos os filmes do coreano Joon-ho Bong, Okja mescla atmosferas e tons entre o fantástico e o real. O ser humano é observado em suas diversas vertentes, construindo uma reflexão principalmente sobre questões ecológicas e de alimentação. É interessante como o grupo de defesa dos animais que cruza o caminho de Mija faça discursos sobre a questão dos transgênicos e de uma busca pela alimentação saudável, sendo contra os maus-tratos aos animais. Mas não fica muito claro se sua filosofia inclui uma alimentação vegana ou comer animais saudáveis e bem tratados é permitido.

De qualquer maneira, a obra traz questionamentos sérios sobre a industrialização dos alimentos, que geram sempre sistemas insensíveis, como diversos abatedouros por aí que confinam o gado em locais minúsculos para que a carne fique macia ou que cortam bicos de galinhas para que elas engordem mais rápido, sem selecionar o que comem. Não que essas questões estejam explicitamente no filme, mas diversas cenas dentro da empresa nos fazem criar comparações, principalmente as sequências finais.

Okja - filmeChama a atenção a maneira como Joon-ho Bong brinca com nossas expectativas. A abertura do filme nos dá uma sensação de um showbusiness com a apresentação de Lucy Mirando, muito bem interpretada por Tilda Swinton, que ainda faz sua irmã gêmea Nancy. Depois somos jogados no meio da mata coreana, com cenas bucólicas de diversão e alguma aventura entre Mija e Okja. As cenas nos fazem compreender também que além de imensa, a porca possui uma inteligência fora do comum, já que se comunica perfeitamente com a garota e ainda é capaz de raciocinar em momentos difíceis.

Por fim, o filme ganha o tom de suspense e perseguição, com momentos de muita adrenalina como a perseguição dos caminhões. Mas há sempre uma certa atmosfera de estranhamento, seja pela imensa porca, seja pela gangue defensora de animais, pela empresa Mirando e seus funcionários. Mija parece a pessoa mais normal naquele meio. Ela só quer voltar para montanha e viver em paz com sua imensa porquinha. E esse jogo irônico é que torna o filme ainda mais envolvente.

No final, há muito o que se refletir nas questões levantadas pela obra. Mas há também muito o que se emocionar com a relação de amor entre a menina e a porquinha (ops). É curioso como Joon-ho Bong consegue mexer com o emocional e o racional ao mesmo tempo, com cenas de impacto e ótimas escolha de direção. Um filme que merece a chance de ser admirado e conhecido, independente da polêmica de ir ou não para as salas de cinema comerciais.

Okja (Okja, 2017 / Coréia do Sul / EUA)
Direção: Joon-ho Bong
Roteiro: Joon-ho Bong, Jon Ronson
Com: Tilda Swinton, Paul Dano, Seo-Hyun Ahn, Jake Gyllenhaal
Duração: 118 min.

Amanda Aouad

Crítica afiliada à Abraccine (Associação Brasileira de Críticos de Cinema), é doutora em Comunicação e Cultura Contemporâneas (Poscom / UFBA) e especialista em Cinema pela UCSal. Roteirista profissional desde 2005, é co-criadora do projeto A Guardiã, além da equipe do Núcleo Anima Bahia sendo roteirista de séries como "Turma da Harmonia", "Bill, o Touro" e "Tadinha". É ainda professora dos cursos de Comunicação e Artes da Unifacs e professora substituta da Facom/UFBA.

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