Caminhos da Floresta

Caminhos da Floresta - filmeApós apresentar uma nova versão para Malévola e a Bela Adormecida, a Disney resolveu retornar no tempo e levar às telas o famoso musical da Broadway que bagunça os contos de fadas em uma trágica e redentora história de amor.

Ainda que tenha suprimido alguns detalhes dessa tragédia, Caminhos da Floresta traz momentos mais sombrios do que a Disney já foi capaz de fazer em sua história. Mortes, traições, mesquinhezas humanas não são poupadas nessa trama que tem como linha condutora o desejo de um padeiro e sua esposa de terem um filho.

Caminhos da Floresta - filmeAmaldiçoados por uma bruxa que pegou o pai do rapaz roubando seu quintal, o casal tem que cumprir quatro tarefas antes da terceira meia-noite: uma vaca branca como leite, fios dourados como milho, uma capa vermelha como sangue e um sapato de ouro verdadeiro. E assim, suas histórias se cruzam com as de Joãozinho e o pé de feijão, Cinderela, Rapunzel e Chapeuzinho Vermelho.

Ainda que sombrio, o musical é vivo, grandioso e traz momentos belos. Há muitas cenas abertas, algumas aéreas da floresta e números musicais envolventes. Ainda que repleto de músicas que fazem a narrativa andar, temos também diálogos tradicionais e cenas inteiras sem acordes musicais guiando.

Caminhos da Floresta - filmeA direção de arte mergulha no mundo da fantasia e vemos composições diversas desde uma bruxa fisicamente estereotipada (feia, nariguda, velha) a um lobo sedutor, vivido por um nem tão caricato Johnny Depp. Mas, tudo é construído com muita ironia, vide a cena em que os dois príncipes cantam contando sobre as mulheres de suas vidas com direito à camisa sendo apertada impulsivamente.

Caminhos da Floresta - filmeMesmo a bruxa caricata possui nuanças em sua composição. Ela não é exatamente má, como mesmo se define, é “certa”. É frágil até certo ponto, pois também é vítima de uma maldição e ama a seu modo, a filha adotiva. Meryl Streep brinca com essas nuanças e se sai muito bem no papel, ainda que a interpretação de Emily Blunt como a mulher do padeiro mereça maior destaque.

Na verdade, Caminhos da Floresta é uma espécie de crítica à humanidade e aos contos de fadas. “Pessoas cometem erros tentando acertar” diz uma música em um momento chave da trama. E essa é a essência do que vemos durante toda a história, a começar pelo pai do padeiro que deu início a todo o problema.

“Cuidado com o que conta, as crianças estão ouvindo” é outra frase de outra música que também diz muito. Assim são os contos de fadas, uma versão atenuada da vida, para que as crianças não se choquem com esses erros humanos. E isso faz de Caminhos da Floresta algo melhor do que parecia a princípio.

Caminhos da Floresta (Into the Woods, 2014 / EUA)
Direção: Rob Marshall
Roteiro: James Lapine
Com: Emily Blunt, James Corden, Anna Kendrick, Meryl Streep, Chris Pine, Tracey Ullman, Johnny Depp, Billy Magnussen, Daniel Huttlestone
Duração: 125 min.

Amanda Aouad

Crítica afiliada à Abraccine (Associação Brasileira de Críticos de Cinema), é doutora em Comunicação e Cultura Contemporâneas (Poscom / UFBA) e especialista em Cinema pela UCSal. Roteirista profissional desde 2005, é co-criadora do projeto A Guardiã, além da equipe do Núcleo Anima Bahia sendo roteirista de séries como "Turma da Harmonia", "Bill, o Touro" e "Tadinha". É ainda professora dos cursos de Comunicação e Artes da Unifacs e professora substituta da Facom/UFBA.

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