Uma Viagem Extraordinária

Uma Viagem ExtraordináriaAutor do cultuado O Fabuloso Destino de Amélie Poulain e Delicatessen, Jean-Pierre Jeunet assina essa divertida fábula sobre um jovem cientista e sua forma particular de ver o mundo.

T.S. Spivet é um garoto superdotado que vive em uma fazenda em Montana com seus pais e seus dois irmãos. Um dia, uma ligação anuncia que ele foi laureado com um importante prêmio no meio científico. O júri, no entanto, não sabe que ele é apenas uma criança. Mesmo assim, ele foge de casa e embarca em uma jornada até Washington, atravessando os Estados Unidos de trem, sem ter ideia do que pode encontrar.

Mais do que a história, chama a atenção a forma como o filme é conduzido por Jean-Pierre Jeunet, representando o universo próprio do garoto, em um misto de imaginação, lembranças, desejos e, claro, realidade. T.S. tem um jeito próprio de encarar a vida, como todo garoto superdotado. Questiona o professor, vai além do ensinado, não se dá bem com o pai fazendeiro e tenta se comunicar com a mãe que vive pesquisando insetos.

Uma Viagem ExtraordináriaAtravés da aventura de T.S., o filme trabalha relações familiares de maneira bem peculiar. A começar pela tragédia com o irmão gêmeo do garoto, Layton. A relação de duplos tão diferentes, a identificação de um com o pai e do outro com a mãe, a questão da ausência e da presença. Tudo é bem construído em uma linguagem simples que possa tocar as crianças. Da mesma forma que o desejo de reforçar que os pais se amam, visto em T.S. Há ainda o papel da irmã mais velha, que sonha com concursos de Miss e é questionada pela mãe na relação vaidade, inteligência, talentos e reais necessidades.

Uma Viagem ExtraordináriaAs próprias conversas da mãe, interpretada com grande personalidade por Helena Bonham Carter, com cada um dos filhos nos dá a real dimensão da personalidade de cada um deles. É nela que reside o papel de confrontar e ignorar ao mesmo tempo a personalidade de cada um, enquanto que o pai parece bastante ausente, imerso nas questões da fazenda e os animais.

Apesar do cérebro brilhante, T.S. é uma criança e seu emocional é bastante infantil, condizente com sua idade, isso fica evidenciado no discurso onde mistura explicações cientificas com os medos e traumas, principalmente pelo destino de seu irmão. Simbologias que dariam teses de psicologia. Mas, aqui são conduzidas com simplicidade. E o garotinho Kyle Catlett consegue segurar bem toda a tensão do personagem.

Uma Viagem Extraordinária tem um tratamento infantil, com diversas alegorias que soam exageradas ou mesmo destoantes, mas consegue tocar em assuntos profundos. É divertido, envolvente e bem conduzido.

Visto no 12º Festival Internacional de Cinema Infantil – FICI

Uma Viagem Extraordinária (The Young and Prodigious T.S. Spivet, 2013, França / EUA / Canadá)
Direção: Jean-Pierre Jeunet
Roteiro: Jean-Pierre Jeunet e Guillaume Laurant
Com: Kyle Catlett, Helena Bonham Carter, Judy Davis
Duração: 105 min.

Amanda Aouad

Crítica afiliada à Abraccine (Associação Brasileira de Críticos de Cinema), é doutora em Comunicação e Cultura Contemporâneas (Poscom / UFBA) e especialista em Cinema pela UCSal. Roteirista profissional desde 2005, é co-criadora do projeto A Guardiã, além da equipe do Núcleo Anima Bahia sendo roteirista de séries como "Turma da Harmonia", "Bill, o Touro" e "Tadinha". É ainda professora dos cursos de Comunicação e Artes da Unifacs e professora substituta da Facom/UFBA.

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