Hércules

HérculesVocês pensam que conhecem a história de Hércules. É o que nos diz o narrador do filme de Brett Ratner. E o que vemos nos próximos 98 minutos é bem diferente da mitologia grega, ainda que tenha ecos dela no mito do líder do grupo de mercenários que vaga pela Grécia.

A trama se passa em um tempo após os famosos doze trabalhos. Baseado na Radical Comics de Steve Moore e Cris Bolsin, o filme nos traz um Hércules humano, líder de um grupo de mercenários contratado para serviços por ouro. É quando o rei de Trácia o contrata para vencer uma ameaça que vem rondando o reino.

HérculesTransformar o personagem em um humano hábil e forte, demonstrando como a lenda surge a partir de feitos heróicos exagerados através dos trovadores, é interessante. Alguns livros já fizeram isso com a Lenda do Rei Artur e Merlin, por exemplo. Trazer a mitologia grega à tona nos traz outras possibilidades igualmente instigantes.

É curioso ver Dwayne Johnson encarnando o semi-deus, agora mortal. O ator finalmente demonstra ser capaz de se despir do personagem de si mesmo, ainda que continue sendo um homem forte. Vemos Hércules em cena e não “The Rock”. E há uma boa química com seu grupo de mercenários, que funcionam em seus diversos papéis.

HérculesA proposta nos dá um filme de ação que mistura estilos de uma maneira interessante. Há muito da técnica romana na forma como Hércules treina o exército de Trácia. Da mesma forma que os valores expostos e as brigas de cidades nos lembram a Idade Média. Não que a Grécia Antiga fosse muito diferente, mas é interessante como a linguagem atualiza as referências para além do que seria a época retratada.

Os deuses aqui são meras alegorias citadas, sem importância efetiva. E não deixa de ser interessante mudar um pouco o ângulo de visão sobre o tema. A trama fica ágil, criando uma identificação maior com novas plateias. Mas, também fica um filme sem alma, querendo agradar a todos. E, no final, deixando a sensação apenas de uma aventura facilmente esquecível.

HérculesNada contra a proposta. Existem filmes também para isso. Mas, ao se tratar de Hércules, um personagem tão impactante na mitologia grega, perde-se algumas oportunidades. Ao mesmo tempo que abre novas perspectivas, principalmente pelo argumento original que pode gerar discussões diversas sobre criação do mito, fé e limites da capacidade humana.

O que talvez decepcione mais em Hércules seja a parte técnica. As lutas são genéricas, muito do CGI dos monstros é frágil e o 3D é inexistente. É possível, inclusive perceber o tempo todo o trabalho da fotografia com variação na profundidade de campo, que com o efeito 3D perde muito do seu sentido de perspectiva.

No final das contas, Hércules não chega a ter a importância que Dwayne Johnson atribui. Talvez em sua carreira seja um marco, realmente conseguimos ver algo a mais ali. Mas, enquanto filme, fica apenas um entretenimento momentâneo com um argumento bem interessante.

Hércules (Hercules, 2014 / EUA)
Direção: Brett Ratner
Roteiro: Ryan Condal, Evan Spiliotopoulos
Com: Dwayne Johnson, John Hurt, Ian McShane, Joseph Fiennes, Rufus Sewell, Irina Shayk
Duração: 98 min.

Amanda Aouad

Crítica afiliada à Abraccine (Associação Brasileira de Críticos de Cinema), é doutora em Comunicação e Cultura Contemporâneas (Poscom / UFBA) e especialista em Cinema pela UCSal. Roteirista profissional desde 2005, é co-criadora do projeto A Guardiã, além da equipe do Núcleo Anima Bahia sendo roteirista de séries como "Turma da Harmonia", "Bill, o Touro" e "Tadinha". É ainda professora dos cursos de Comunicação e Artes da Unifacs e professora substituta da Facom/UFBA.

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