Deus e o Diabo na Capital

47º Festival de Cinema de BrasíliaO 47º Festival de Cinema de Brasília começou em grande estilo. A abertura foi em homenagem aos 50 anos do filme Deus e o Diabo na Terra do Sol, com direito a exibição de cópia restaurada, presença dos filhos do cineasta e Orquestra de Câmara.

O clima era de celebração. Paloma Rocha fez um discurso emocionado sobre o pai, sua obra e necessidade de mantê-la viva. Começou lembrando sua avó Lúcia Rocha, maior responsável pela luta para preservação da obra de Glauber, e lembrou que, hoje, ela teme pelo fim do Templo Glauber, pela falta de apoio e fez um apelo pela preservação do mesmo. Paloma ainda ressaltou que agora toda a obra restaurada de Glauber Rocha está na mão da Cinemateca Brasileira. Seu irmão Henrique Cavalleiro também estava presente, porém preferiu não falar. Chamo a atenção para a semelhança física com o pai.

Após as falas, a orquestra de câmara sob regência do maestro Claudio Cohen interpretou duas musicas marcantes do filme. Perseguição, composta por Sérgio Ricardo e Bachiana nº 5 de Heitor Villa-Lobos que teve a participação da soprano Janete Dornellas. Momento de pura emoção.

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Deus e o Diabo na Terra do Sol

Deus e o Diabo na Terra do SolMas, a exibição da cópia restaurada de Deus e o Diabo na Terra do Sol foi mesmo o ponto alto da noite. Mesmo já tendo visto tantas vezes, rever na tela grande em uma bela cópia tem seu valor.

Segundo filme de Glauber Rocha continua sendo para mim o mais marcante e importante de sua carreira, após Barravento. Aqui, Glauber pode expor toda a sua força e ideias. Através de uma verdadeira ópera nordestina, ele falou de política, de sertão, de justiça, de religião, de manipulação, de cangaço, de esperança, de seca, de miséria.

Deus e o Diabo na Terra do SolDeus e o Diabo na Terra do Sol mostra a trajetória de Manuel, um sertanejo comum que começa sua saga ao discutir com um fazendeiro e matá-lo. Em sua fuga, ele vai buscar refúgio primeiro com o beato Sebastião e depois como cangaceiro Corisco.

A primeira questão que o filme levanta seria, quem é Deus e quem é o Diabo nessa trama? Onde o beato manipula fiéis em uma lógica ilógica, e o cangaceiro, no fundo, protege-os. O próprio Corisco diz mais adiante sobre Sebastião: “aquele ali não valia nada”.

Ainda tem a figura do cego narrador, que traz sua própria simbologia, e o jagunço Antônio das Mortes que também traz sua ambigüidade, apesar de ser um matador profissional. Vale lembrar que ele poupou a vida de Manuel e de Rosa por duas vezes.

Deus e o Diabo na Terra do SolMas, além do discurso inflamado, da força da mensagem, das músicas e do próprio tema, o filme traz também sua beleza estética em imagens bem construídas. A cascata de devotos aos pés de Sebastião quando Manuel chega é um exemplo. O jogo de imagens de Rosa e Dedé quando se conhecem também. Isso sem falar no beijo entre Corisco e Rosa ao som da Bachiana nº 5.

Os atores também são peças fundamentais nesse espetáculo. Principalmente Geraldo Del Rey como Manuel e Othon Bastos como Corisco. Mas, Yoná Magalhães como Rosa e Maurico do Valle como Antonio das Mortes também são destaques.

Deus e o Diabo é ainda um grito de esperança, ou desesperança, de que um dia o povo sertanejo deixe de pagar por uma vida tão miserável. E que o sertão vire mar, pois essa “terra é do homem, não é de Deus, nem do Diabo”.

Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964 / Brasil)
Direção: Glauber Rocha
Roteiro: Glauber Rocha
Com: Geraldo Del Rey, Othon Bastos, Yoná Magalhães, Maurício do Valle, Sônia dos Humildes.
Duração: 120min.

Amanda Aouad

Crítica afiliada à Abraccine (Associação Brasileira de Críticos de Cinema), é doutora em Comunicação e Cultura Contemporâneas (Poscom / UFBA) e especialista em Cinema pela UCSal. Roteirista profissional desde 2005, é co-criadora do projeto A Guardiã, além da equipe do Núcleo Anima Bahia sendo roteirista de séries como "Turma da Harmonia", "Bill, o Touro" e "Tadinha". É ainda professora dos cursos de Comunicação e Artes da Unifacs e professora substituta da Facom/UFBA.

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