A Estrada

A EstradaFilmes pós-apocalípticos parecem que estão cada vez mais em voga. Depois de Eu sou a lenda e O Livro de Eli, chegou a vez de Viggo Mortensen perambular por um planeta devastado sob a ameaça de canibais. A grande diferença desse filme baseado no livro de Cormac McCarthy é que o protagonista tem uma companhia bem singela: seu filho pequeno, vivido pelo australiano Kodi Smit McPhee.

O argumento é simples: pai e filho caminham pelo mundo devastado tentando sobreviver fugindo dos homens maus (os canibais) e procurando os homens bons que nem sabem se ainda existem. Não há um objetivo traçado, um plano, nem um plot específico. Eles simplesmente vão andando, e lidando com o que encontram. O que torna o filme interessante é, então, a relação dos dois atores e a dramatização das situações difíceis.

Cartaz A EstradaA angústia de se encontrar um porão cheio de seres humanos prontos para o abate, o desespero de se esconder no mato para não ser mais uma vítima, a felicidade de encontrar comida, a tensão na possibilidade de estarem sendo seguidos, o alento das lembranças felizes e, principalmente, a companhia um do outro. A certeza de que ainda existe algo pelo qual se ter esperança. Enquanto o menino existir, seu pai acredita que possa haver um futuro. O difícil é ver esse filho com fome e não ter como saciar sua necessidade. “Vamos morrer logo?”, ele pergunta. “Não, demora muito para se morrer de fome.”

Viggo Mortensen está muito bem no papel do pai sofrido e determinado, assim com o pequeno McPhee que demonstra sofrimento de gente grande. O filme ainda traz participações especiais de atores como Robert Duvall e Guy Pearce.

A sensação que fica após o término do filme é que somos tão privilegiados e nem nos damos conta disso. Reclamando de coisas bobas que nos parecem verdadeiras tragédias. Talvez os filmes atuais estejam querendo nos alertar para o consumo consciente, ou talvez seja apenas oportunismo quando se fala tanto em fim dos tempos. O fato é que o diretor australiano Hillcoat e o roteirista Joe Penhaal conseguiram construir tensão em cima do nada, ou quase nada. A ação é sempre algo esporádico, que não se sustenta, mas está sempre rondando essa situação extrema e a relação dos dois personagens.

Amanda Aouad

Crítica afiliada à Abraccine (Associação Brasileira de Críticos de Cinema), é doutora em Comunicação e Cultura Contemporâneas (Poscom / UFBA) e especialista em Cinema pela UCSal. Roteirista profissional desde 2005, é co-criadora do projeto A Guardiã, além da equipe do Núcleo Anima Bahia sendo roteirista de séries como "Turma da Harmonia", "Bill, o Touro" e "Tadinha". É ainda professora dos cursos de Comunicação e Artes da Unifacs e professora substituta da Facom/UFBA.

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