A Fita Branca

“O medo é a trilha para o lado negro. O medo leva à raiva. E a raiva leva ao ódio. O ódio leva ao sofrimento.” Quando mestre Yoda disse isso para Anakin Skywalker ele estava prevendo o futuro de um dos maiores vilões da ficção científica. Alguns dizem que a Saga de George Lucas é uma analogia ao nazismo. Fantasia ou realidade, o âmago do que aconteceu ao povo alemão para que aceitasse um líder como Hitler e disseminasse a idéia de raça pura e anti-semitismo com tanta força ainda é um mistério. Experiências até tentaram compreender, como o retratado no filme A Onda. Agora, saber mesmo é mais complicado.

E é assim que a gente fica após assistir A Fita Branca. Há muitas perguntas e poucas respostas. O narrador já havia dito no início que não tinha certeza de que tudo que irá narrar é verdade. Aliás, há tempos não via um filme onde a voz over fosse tão bem utilizada e necessária ao roteiro. É através dela que fazemos as associações que Michael Haneke quer passar: a origem do nazismo, ou como o narrador diz “quem sabe, eles poderiam esclarecer algumas coisas que ocorreram neste país.” A verdade é que faz parte da filmografia do diretor expor a crueldade humana até o seu limite. E o mais tenso é demonstrar essa crueldade em crianças.

Ao escolher filmar em preto e branco, Michael Haneke e Christian Berger conseguiram acentuar ainda mais o tom obscuro da trama. Os contrastes são grandes, negro é denso, branco é brilhante. As cenas ficam mais intensas e fortes, apesar de sentir falta de cores quando o pastor pergunta por exemplo ao filho porque ele ficou ruborizado ao falar de determinado assunto. Em contra-partida, o objeto do título “a fita branca” fica bem visível no contraste. O significado dela é metafórico. O pastor da vila amarrava uma fita branca nos filhos para deixá-los longe dos pecados, um símbolo de pureza. Era uma espécie de rito de passagem tirar a fita, significava que a criança tinha amadurecido e já sabia discernir as coisas.

As interpretações são assustadoramente fortes, principalmente do suspeito grupo de crianças.  Na dor, no disfarce, no medo, na dissimulação, na confissão. Cada personagem é tensamente construído como todo o resto, na sutilidade e nos detalhes. Um olhar, um pequeno gesto, uma frase não terminada. A Fita Branca é daqueles filmes que nos tiram do conforto e nos obrigam a refletir.

Amanda Aouad

Crítica afiliada à Abraccine (Associação Brasileira de Críticos de Cinema), é doutora em Comunicação e Cultura Contemporâneas (Poscom / UFBA) e especialista em Cinema pela UCSal. Roteirista profissional desde 2005, é co-criadora do projeto A Guardiã, além da equipe do Núcleo Anima Bahia sendo roteirista de séries como "Turma da Harmonia", "Bill, o Touro" e "Tadinha". É ainda professora dos cursos de Comunicação e Artes da Unifacs e professora substituta da Facom/UFBA.

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