Coração Vagabundo – De fato um documentário

Coração Vagabundo com Caetano Veloso - filme

Quando li as primeiras críticas de Coração Vagabundo focando a polêmica da nudez de Caetano, pensei que fosse ver alguma apelação em cena. Mas, na verdade, a brincadeira quase infantil do diretor Fernando Grostein Andrade e da, então, esposa de Caetano, Paula Lavigne, é apenas a introdução do longa, vindo mesmo antes dos créditos. É apenas um chamariz que mostra que ali existe um filme que não irá construir uma cine-biografia do cantor, mas desnudar a intimidade de um homem polêmico, inteligente e que adora falar.

Um documentário parte de um tema, seja ele qual for e constrói a sua intimidade, o dia a dia, os detalhes. Ao contrário do que vi em algumas críticas que o compara a uma revista de fofoca, o que me encantou no filme foi exatamente a capacidade de ser algo que deixa o tema fluir, sem utilizar de recursos como narrativa explicativa, nem lugares comuns como colocar Gilberto Gil, Maria Bethânia ou Gal Costa para dar depoimento. Como disse, não é uma cine-biografia, é um documentário sobre uma turnê específica e um momento específico de um cantor e compositor.

Coração Vagabundo com Caetano Veloso - filmeCaetano Veloso se mostra sem medos, provavelmente se acostumou com a presença de Fernando em seu pé todos os dias. Nem mesmo esconde seus momentos de fraqueza, como após a separação com Paula Lavigne em que está visivelmente abatido, ou quando um japonês se aproxima dele e diz que adora Coração Vagabundo, deixando-o desconcertado.

A câmera de Fernando Grostein Andrade é quase amadora, em muitos momentos tremida ou fora de foco (quando está andando nas ruas com o cantor), mas capta momentos incríveis, sensíveis, instigantes, deixando que o seu entrevistado faça as duas coisas que mais gosta e sabe: cantar e falar suas filosofias incompreendidas. O grande trunfo do filme está na edição dessa salada de imagens captadas em dois anos de turnê do show A Foreign Sound. O ritmo do filme é muito bom, flui sem que o espectador perceba o tempo passar. Mesmo os créditos finais estão compostos de forma harmônica. Acho que foi a primeira vez que vi uma sala de cinema ficar totalmente sentada até a tela branca aparecer confirmando que a projeção acabou de fato. Mesmo na Sala de Arte, onde estava, as pessoas normalmente saem quando começam a “subir as letrinhas”.

É uma verdadeira jornada seguir Caetano e suas divagações, rechedas de momentos ímpares como a emoção de Michelangelo Antonioni ao rever uma cena sua, a piada de ver Pedro Almodóvar falando em inglês e no meio da fala se perguntar porque estaria falando naquela língua ou a resposta de Caetano a uma crítica de Hermeto Pascoal. Vale a pena, mesmo para os que não são fãs declarados do cantor e compositor baiano.

Amanda Aouad

Crítica afiliada à Abraccine (Associação Brasileira de Críticos de Cinema), é doutora em Comunicação e Cultura Contemporâneas (Poscom / UFBA) e especialista em Cinema pela UCSal. Roteirista profissional desde 2005, é co-criadora do projeto A Guardiã, além da equipe do Núcleo Anima Bahia sendo roteirista de séries como "Turma da Harmonia", "Bill, o Touro" e "Tadinha". É ainda professora dos cursos de Comunicação e Artes da Unifacs e professora substituta da Facom/UFBA.

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