Perlimps

Perlimps, animação de Alê Abreu, é um desses filmes que primeiro nos conquistam pelos olhos e só depois tentam explicar o que estão dizendo. Desde os primeiros instantes, quando cores amarelas, roxas, lilases, azuis e verdes surgem na tela acompanhadas pela música, fica evidente que estamos entrando em um universo que funciona menos pelas regras convencionais da narrativa e mais pela imaginação. É uma escolha coerente com o cinema de Abreu, embora também esteja na origem de alguns dos problemas do filme.

A história acompanha Claé e Bruô, dois agentes secretos pertencentes a reinos rivais, o do Sol e o da Lua. Eles começam desconfiados um do outro, carregando a rivalidade de seus povos, mas acabam obrigados a trabalhar juntos para encontrar os misteriosos Perlimps e proteger o Bosque Encantado de uma ameaça representada pelos Gigantes. É uma premissa simples, quase de conto infantil, mas Alê Abreu não trata a criança como alguém incapaz de lidar com ambiguidades. O filme prefere sugerir, esconder informações e permitir que parte daquele mundo seja completada pela imaginação.

É justamente aí que Perlimps encontra sua personalidade. Alê Abreu não tenta reproduzir a aparência de uma animação convencional. Depois da linguagem extremamente particular de O Menino e o Mundo, ele parte para outra experiência visual, baseada em diferentes traços, pinturas, texturas, luzes e movimentos. A floresta parece estar sempre se transformando diante dos olhos, e a combinação de cores cria uma atmosfera quase onírica. Há momentos em que os personagens parecem pequenos diante da imensidão do cenário, o que dá à aventura uma sensação simultânea de descoberta e solidão.

perlimps filme animacao 02

A abertura é talvez o melhor exemplo da proposta do filme. Antes mesmo de a história estar plenamente estabelecida, as cores e a música já estão criando uma experiência sensorial. Não é apenas uma questão de beleza. A imagem funciona como linguagem. O problema aparece quando essa exuberância precisa dividir espaço com o roteiro.

O ponto mais discutível de Perlimps está justamente nessa tentativa de equilibrar uma animação visualmente ousada com uma narrativa muito simples. Claé e Bruô conversam, explicam seus objetivos, mencionam equipamentos, perigos, reinos e criaturas, mas muitas dessas informações permanecem abstratas. O mundo que deveria cercar os protagonistas parece frequentemente vazio, como se a floresta fosse mais uma pintura extraordinária do que um lugar efetivamente habitado.

Isso cria uma curiosa contradição. O filme quer estimular a imaginação, mas em alguns momentos explica demais aquilo que a imagem poderia simplesmente sugerir. Em outros, faz o contrário e deixa lacunas tão grandes que a aventura perde parte de sua urgência. Para um longa de curta duração, essa irregularidade pesa. Há sequências belíssimas que parecem prolongar uma sensação mais do que desenvolver a história.

Também existe uma questão complicada em relação ao público. Perlimps é claramente uma animação voltada às crianças, mas sua forma visual e algumas de suas sugestões narrativas parecem exigir uma atenção mais próxima da de um espectador adulto. A consequência é um filme que pode ser simples demais para quem procura uma narrativa infantil tradicional e abstrato demais para crianças muito pequenas. Essa tensão não destrói a experiência, mas impede que o longa encontre um equilíbrio melhor.

As vozes de Lorenzo Tarantelli e Giulia Benite ajudam bastante porque Claé e Bruô precisam funcionar principalmente como dupla. A rivalidade inicial, a desconfiança e a posterior aproximação são fundamentais para que a fábula tenha alguma força emocional. Stênio Garcia, por sua vez, acrescenta uma presença mais sábia e tradicional ao universo fantástico, funcionando como uma espécie de ponte entre aquele mundo infantil e aquilo que o filme pretende dizer ao espectador.

perlimps filme animacao poster

E o que Perlimps pretende dizer fica mais interessante justamente quando a aventura deixa de ser apenas uma busca por criaturas mágicas. A ameaça ao Bosque Encantado e a oposição entre grupos diferentes funcionam como uma alegoria para conflitos muito maiores. A preservação da natureza está presente, mas o filme também fala sobre intolerância, separação e a dificuldade que os adultos têm de enxergar aquilo que duas crianças conseguem perceber: diferenças não necessariamente impedem a convivência.

A grande reviravolta nos minutos finais é o momento em que essas ideias finalmente se encaixam. O que parecia uma aventura infantil ganha uma dimensão política e social mais séria. É uma mudança importante porque reorganiza aquilo que vimos anteriormente e faz com que algumas imagens ganhem novo significado, mas se parte dessa transformação fosse desenvolvida antes, Perlimps poderia explorar com maior intensidade as consequências de sua própria revelação.

Ainda assim, há algo admirável na escolha de Alê Abreu. Em vez de transformar uma história infantil em uma sucessão de explicações pedagógicas, ele aposta na imagem, no som e na metáfora. Nem sempre o resultado é plenamente equilibrado, mas existe ali uma confiança rara na inteligência do espectador, mesmo os pequenos.

Perlimps não alcança a mesma força narrativa de O Menino e o Mundo, e talvez essa comparação seja inevitável. Mas seria injusto enxergá-lo apenas como um sucessor menor. O filme revela outro lado de Alê Abreu, mais colorido, mais próximo da fantasia e mais diretamente voltado ao público infantil. Quando funciona, suas imagens são capazes de produzir aquilo que poucas animações brasileiras conseguem: fazer uma floresta desenhada parecer um lugar que continua existindo mesmo depois que a tela escurece.

Seu maior mérito está nessa capacidade de transformar uma aventura aparentemente ingênua em uma reflexão sobre diferenças, natureza, conflito e convivência. Seu maior defeito é não encontrar sempre uma forma igualmente inventiva de contar essa história. Entre uma coisa e outra, Perlimps permanece como uma animação brasileira visualmente ambiciosa, imperfeita em seu roteiro, mas suficientemente inquieta para lembrar que filme infantil não precisa significar um cinema menor, bobo ou simplório.

Perlimps (Perlimps, 2023 / Brasil)
Direção: Alê Abreu
Roteiro: Alê Abreu
Com: Lorenzo Tarantelli, Giulia Benite, Stênio Garcia
Duração: 75 min.

Ari Cabral

Bacharel em Publicidade e Propaganda desde 2000 e atuante na área, alia técnica e criatividade em tudo o que faz. Cinéfilo de carteirinha, Ari se apaixonou pelo cinema nas madrugadas da TV, onde filmes clássicos moldaram seu olhar crítico e sua veia artística, inspirando-o a participar de um curso de crítica cinematográfica ministrado por Pablo Villaça. Histórias são a alma de sua trajetória. Jogador de RPG há mais de 30 anos, decidiu unir sua experiência como roteirista e crítico e sua determinação para escrever livros e materializar suas ideias. Seu primeiro livro, Corrida para Kuélap, está disponível para venda para Kindle. E é só o começo.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *